Quem passa pela Reitoria do Campus Uvaranas certamente já o viu deitado no gramado. Negão, o cachorro carinhosamente cuidado pelos servidores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), faleceu na madrugada desta quinta-feira (8), após mais de 15 anos de residência nas imediações da Universidade. Sempre ao lado de sua fiel companheira Rajada (chamada por alguns como “Cotoca”), o mascote marcou a rotina dos que dividiam seu trabalho entre cuidados com ele.

Negão costumava ser morador da região das quitinetes e interagia com os alunos que moravam por lá. Durante a semana, comparecia na UEPG para assistir às aulas no Bloco L. Seu dia a dia era agitado e de caminhadas diárias pela região. Mas os perigos da Avenida Carlos Cavalcanti o pegaram. Há cerca de 5 anos, Negão foi atropelado, encaminhado a uma clínica veterinária e precisou de cirurgia. Quando voltou do pós-cirúrgico, estava com sequelas do acidente. “Com mais dificuldades de se locomover, os cães comunitários dos outros setores não o aceitavam muito bem, e ele acabou ficando mais no portal de entrada da UEPG”, relembra a integrante do Grupo Fauna, Lucia Helena Garrido. Com o ocorrido, ele passou a ser acolhido pelos servidores da Reitoria, com alimentação, água e carinho. “Ele resolveu ficar com a Rajada, sempre víamos os dois juntos, por mais que ele rosnasse para ela na hora da comida, principalmente se fosse um patê”, conta.Uma das servidoras que acompanhou a vida de Negão a partir desse acontecimento foi Silvânia Chiezi Mendes, que atua na área administrativa da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (Propesp). A história de Silvânia com Negão começou há mais ou menos 4 anos. “Geralmente o via pelos arredores com a Cotoca. Eles sempre ficavam juntos, não se misturavam muito com os outros cachorros, então começamos a alimentá-los e os dois foram ficando mais próximos da gente”. O tempo foi passando e Negão ficou com mais dificuldades para andar. “Já não corria atrás das motos e outros cachorros que passavam por lá”, segundo Silvânia. A dupla canina inseparável acabou dedicando seus dias a fazer companhia aos servidores da Propesp. “Quando chegávamos para trabalhar de manhã, os dois já estavam nos esperando, passavam um tempo com  a gente, inclusive dentro da sala”. Até da aula de ginástica laboral os dois participavam. “Muitas vezes a gente estava agachado e o Negão passava pelas nossas pernas”.

Em 2020, por conta da pandemia, Negão e Rajada passavam os dias sozinhos, principalmente no inverno.  “Fiquei muito sensibilizada ao vê-los assim. Por isso pedi, junto à Prefeitura do Campus, uma casinha que pudesse aquecer os dois. Colocamos no portal, que tem comedouro e bebedouro, o que os deu um pouco mais de conforto”, finaliza Silvânia.

Paulo Lemos, da Ouvidoria da UEPG, também conta dos momentos que viveu com o Negão. O cão dócil, que o recebia todas as manhãs na entrada fará muita falta para ele. “O Negão nos recebia como se estivesse cumprimentando e saudando a todos com um bom dia, parecendo até que controlava a entrada de todos”. O servidor conta que, em vida, o mascote recebeu muita demonstração de carinho, seja com um pouco de comida ou até uma coleira improvisada com a inscrição “Propesp” nela.

A história do mascote não era limitada apenas aos servidores. Alunos da UEPG também tiveram seus dias marcados pela presença do fiel companheiro de aulas e intervalos no corredor. “Uma das lembranças mais legais do curso de História foi esse camarada. Assistiu mais aulas que muito acadêmico, transitava pelos corredores e salas com naturalidade, foi um patrimônio do curso. Em todo evento, palestra ou exposição, ele era figura presente. Frequentador assíduo das reuniões do Diretório Acadêmico ou nas festas noite adentro no bar”, relembra o egresso de História, Marcus Adamowicz Filho. Em postagem no Facebook, Sid Ácrata também lamenta o falecimento de Negão. “Não posso e não irei esquecer da sua amizade fiel, do seu amor pela Rajadinha e pela liberdade, sempre escapando de todo mundo que queria te abrigar. Sei que você confiava muito em mim e a recíproca é verdadeira, amigo. Você faz parte da minha história e da minha vida e não posso lembrar do passado sem lembrar do grande amigo que você foi e ainda é para mim”.

Negão era alimentado todos os dias pelo Grupo Fauna, que dispõe de cerca de 4 cuidadores, e que se revezam durante a semana para que os animais não fiquem sem alimento e água fresca. Ele ainda tomava medicação para dor e anti-inflamatório para aliviar as articulações. A alimentação era especial, com grãos menores e sem corante. O mascote foi enviado à Ponta Grossa Ambiental, que fez o enterro em local adequado. Apesar do fim de sua vida, Negão deixou saudades. Para se despedir, Paulo Lemos deixou uma mensagem: “Negão, tudo tem o seu tempo certo, e chegou a hora de descansar, quando você estiver no céu de quatro patas, lembre-se de que sentiremos muito a sua falta!”.

da Ascom UEPG