Livre mercado, valores morais e religiosos, respeito às liberdades individuais e patriotismo são algumas das bandeiras defendidas pela direita, que há alguns anos vem conquistando brasileiros de todas as idades e classes sociais. Antes pouco conhecidos, esses temas agora são exaustivamente debatidos em mesas de bar, programas de TV e redes sociais.

No Brasil atual, um número cada vez maior de pessoas se identifica com as ideias de direita e se assume como “direitista”, algo impensável em um passado não muito distante. Mas, afinal, que fatores explicam o avanço dessa corrente no Brasil? Confira a seguir a visão de quatro cidadãos ponta-grossenses – dois de direita e dois de esquerda – sobre o assunto.

DESCRENÇA NO PROGRESSISMO

(Foto: Reprodução / Facebook)

“Materialmente, acredito que sejam três os fatores que catapultaram o crescimento da nova direita: a insatisfação econômica; as denúncias de corrupção; e o aumento da violência. Esse cenário de desolação exige uma resposta, e a população, depois de tantos governos de esquerda, parece já não acreditar na alternativa ‘progressista’. Ao contrário: consolidou-se a ideia de que as próprias ideias de esquerda fomentam esses problemas.

Porém, a expansão da direita tem causas bem mais profundas e duradouras, nem sempre facilmente perceptíveis. Grande parte do ideário conservador estava latente na sociedade e só não conseguia emergir pela falta de canais de expressão, fornecidos agora pelos meios digitais.

E há, de fato, mudanças de pensamento e uma abertura cultural. Um exemplo é a mudança nas bases da Igreja Católica, com a ruína da Teologia da Libertação. Esse processo de mudança vai continuar, independente da situação do governo ou dos fatores materiais já mencionados”

Carlos Eduardo de Paula, membro da Confraria Tomista, grupo de estudos voltado ao pensamento de São Tomás de Aquino, com membros em Ponta Grossa

RETROCESSO CIVILIZATÓRIO GLOBAL

(Foto: Editora Estúdio Texto)

“O avanço da direita é um fenômeno mundial. A humanidade vive ciclos de progressos e retrocessos, como um coração a bater, um pulmão a respirar. Mas os progressos vencem, evoluímos. O Brasil é caso particular: colônia saqueada; índios exterminados; escravidão; frouxidão de patriotismo; riquezas que despertam cobiça estrangeira; ditadura que sufocou o sonho de país liberto dos grilhões colonialistas. Isso nos marcou a fundo.

As elites perpetuam os seus privilégios curvando o país a interesses transnacionais predatórios. Escarnecem da nossa vontade de ser uma nação inclusiva e soberana. A grande mídia, submissa à elite entreguista, sabotou e demonizou o governo que visava a soberania nacional e a diminuição das desigualdades sociais. O povo, inculto, não logra emancipar-se, não tem discernimento e firmeza moral para engajar-se na transformação de valores e condutas que resgate o país da sanha da rapinagem.

Elite mercenária e apátrida, mídia facciosa, povo inculto: eis os ingredientes necessários para que viralizem mentiras e ascenda a direita fantoche dos interesses transnacionais, travestida de salvadora da pátria. Um retrocesso civilizatório. O gérmen de um novo ciclo de esperança à frente”

Mário Sérgio de Melo, escritor, geólogo, professor aposentado do Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)

REAÇÃO A TUDO QUE AÍ ESTÁ

(Foto: Reprodução / Facebook)

“O crescimento da direita no Brasil começou com o avanço da Operação Lava Jato. Em 2013, tivemos algumas manifestações que demonstravam o descontentamento geral. Entretanto, com as descobertas da Polícia Federal e as denúncias de corrupção no governo, a insatisfação aumentou. O agravamento da crise econômica também foi importante para que o povo começasse se interessar pelas ideias de direita. Esses dois fatores criaram um ambiente ‘reacionário’ no sentido que Nelson Rodrigues dava ao termo, de reagir a tudo que aí está.

“Com isso, surgiu um cenário bom para o lançamento de projetos e debates, e a ideias de direita, antes negligenciadas, ganharam destaque. Nós tivemos o lançamento do livro Pare de acreditar no governo, do [cientista político] Bruno Garschagen, e as ideias do [filósofo] Olavo de Carvalho foram compiladas pelo Felipe Moura Brasil no livro O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. O avanço da direita pode ser explicado pelo crescimento intelectual e cultural do povo, bem como pela insatisfação com o governo e pela crise econômica.”

Lucian Pauli Jaros, administrador da página ponta-grossense Reduto Conservador, no Facebook, e articulista do site Libertwins

FALÊNCIA DO MODELO CAPITALISTA

(Foto: Reprodução / Facebook)

“Primeiramente, o que vemos no Brasil não é o avanço da direita, mas, sim, da extrema direita. O primeiro fator que explica essa mudança é o econômico, pois o fenômeno está associado à falência do modelo capitalista no mundo todo. Esse modelo é extremamente concentrador e enriquece um número cada vez menor de pessoas. O lucro dos quatro maiores bancos do país chegou a R$ 70 bilhões, enquanto 15,2 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da extrema pobreza.

O governo eleito se diz neoliberal e foi escolhido com base em um discurso nacionalista, mas é entreguista. É também reacionário, pois retira direitos e conquistas das minorias. Além disso, coloca o Estado a serviço de um grupo religioso que passa a gerir em benefício próprio.

A mídia também teve um papel importante no avanço da direita, legitimando, ao longo dos últimos 15 anos, que a corrupção era um problema exclusivo de um partido. O fundo do poço é falso, e a falência do modelo capitalista tende a aumentar a pobreza e a violência. A solução é reorganizar os setores progressistas e evitar esse retrocesso”

Sérgio Luiz Gadini, professor do curso de Comunicação Social – Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)

Por Michelle de Geus