Em 1º de outubro, comemora-se o Dia Nacional da Pessoa Idosa, data criada em 1991 pela Organização das Nações Unidas (ONU), com foco em sensibilizar a sociedade para as questões voltadas ao envelhecimento. Há 20 anos, nesta data, foi aprovada a Lei nº 10.741 no Brasil, criando o Estatuto do Idoso. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica como idosos as pessoas com mais de 65 anos de idade em países desenvolvidos e com mais de 60 anos nos países em desenvolvimento. Na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), entre sorrisos e bênçãos para os chamados “netos do coração”, pessoas idosas chegam diariamente para participar de alguma das atividades oferecidas pelos projetos extensionistas da instituição, em que destacam-se a Universidade Aberta da Terceira Idade (Uati), o grupo Natividade, oferecido pelo Departamento de Educação Física (Dedufis) e o Projeto Aurora.

Uati

A Uati atua desde 1992 na promoção de atividades de ensino, qualidade de vida, saúde mental e física, arte e lazer para pessoas acima de 55 anos. Atualmente, o projeto conta com cerca de 100 alunos, entre homens e mulheres com diferentes níveis de escolaridade, profissão e vivências, que participam de forma presencial no Campus Centro, Bloco A, todos os dias da semana. A coordenadora da Uati, Rita de Cássia da Silva Oliveira, enfatiza a importância do estudo e fundamentação teórica para trabalhar com a pessoa idosa. “Precisamos ver a heterogeneidade da velhice, agindo de forma individual. Cada um já tem uma caminhada, angústias, uns são extrovertidos, outros não”, explica a coordenadora.

Maria Aparecida Rocha, 71 anos, é servidora aposentada da UEPG. Começou a trabalhar na instituição como auxiliar de limpeza em 1983, onde ficou 11 meses. Posteriormente, Maria passou para técnica de laboratório e conta que o contato com a área a fez entrar no curso de graduação. “Estudei, me formei em Física e trabalhei no Departamento por 37 anos”, rememora, “todos me ajudaram muito, tanto que nem queriam que eu me aposentasse, mas tudo tem seu tempo”, conclui. Maria entrou na Uati em 2019, menos de dois meses após se aposentar, e conta que a não conseguiu ficar longe da instituição. “Coisa que eu mais amo nessa vida é essa Universidade, aqui eu vivi minha vida, criei meus filhos, me realizei como profissional, como pessoa, e vou continuar aqui pelo tempo que puder”, afirma. “Eu gosto de fazer tudo que tem aqui, vir conversar com as amigas me faz sentir uma adolescente, é legal demais”.

A Uati realiza formatura após a conclusão de um ano dos alunos, e a família de Maria não podia deixar de celebrar. “Fizeram uma festona, com todos os meus filhos, irmãs, todo mundo reunido”. As duas irmãs de Maria também são aposentadas da UEPG: uma delas trabalhou no Departamento de Odontologia e outra no Departamento de Farmácia e no de Medicina. Ambas já foram convidadas para participar da Uati com a irmã. “Aqui faço amizade, brinco, não fico nem uma semana em casa”, diverte-se Maria.

A gama de atividades ofertadas pela Uati é extensa: dança, yoga, contação de histórias, informática, inglês, dança de salão, pilates, teatro, hidroginástica, espanhol, francês, seresta, tai-chi-chuan, ritmo, natação, coral, artes e pintura – além da programação que acontece fora, como passeios, viagens, piqueniques e bailes. Catarina Lima dos Santos, 75 anos, está na Uati desde 2008. Ela relata que sua vida mudou muito desde a entrada no projeto. Viúva, com os filhos casados, aposentada, conheceu o projeto através de uma amiga. “Você remoça, revê amigos, vive coisas que jamais achou que ia viver”, relata.

A atividade preferida de Catarina é o teatro, em que participa ativamente das dramatizações, passando por diferentes papéis. “Já atuei até como noiva abandonada pelo noivo em fuga”, conta aos risos. Com olhar atento enquanto pinta panos de prato de temática natalina ao lado das amigas, Catarina afirma que a Uati lhe trouxe a vida de volta. “Tenho compromissos todo dia, tenho o que fazer e isso rejuvenesce a gente, faz termos algo importante pra nós”. Enquanto fala, as amigas que carinhosamente se chamam de “meninas”, interrompem com lembranças e ajudam Catarina em seu relato. “Já viajamos muito, fomos até para Gramado, no Rio Grande do Sul, e fora daqui saímos juntas, entre amigas, para nos encontrar e passar a tarde numa lanchonete”.

A Uati também possibilitou que Catarina realizasse sonhos como o de bordar chinelos com pedraria, pintar em tecidos e fazer artesanatos. As aulas são tudo menos silenciosas: todas conversam, contam da vida, compartilham experiências e se conhecem melhor. “Nenhuma de nós é igual mas no final nos entendemos”, afirma a aluna, que também relata trazer amigas, irmãs e sempre que possível alguém novo para conhecer a Uati. A participação no projeto também foi motivo de muito orgulho para a família de Catarina, que fez uma festa de formatura ao estilo graduação.

O trabalho com idosos envolve paciência e mente aberta para compreender a bagagem, experiência e personalidade de cada um. Rita, coordenadora, afirma que o contato pessoal é muito importante, sendo o abraço, carinho e atenção primordiais. “Eles são muito prestativos e afetivos, muitas vezes a gente mais aprende do que ensina”, relata. As disciplinas que a Uati oferece têm como objetivo manter os idosos ativos, atualizados, integrantes e participantes da sociedade.

Com 32 anos de carreira na Uati e gerontóloga desde 1997, Rita explica que todos os envolvidos no curso procuram fazer um bom planejamento, voltado aos interesses dos idosos e se renovando de acordo com a demanda pessoal e social. “Visamos o envelhecimento ativo, que eles conheçam seus direitos, saindo do estereótipo do idoso quietinho em casa”, afirma. O contato direto com pessoas idosas também permite que sejam elaborados trabalhos mais precisos. A coordenadora revela que o perfil deles está mudando para idosos que buscam saúde através do exercício físico, contato e conhecimento em tecnologia para trabalhar, dirigir, usar caixas de banco e ferramentas da internet. “Eles solicitam conhecimentos sobre nutrição, direito, relações humanas, geracionais e isso só acrescenta em nosso curso”, conclui Rita.

A professora de artesanato, Isabel Cristina Mayer, tem 68 anos e está na Uati há um ano e meio. Em meio à euforia das alunas, que fazem piadas e debatem sobre as pinturas, a professora compartilha que a mudança na vida dos alunos é visível. “Faz bem pra mim e para elas. Nós entramos aqui e deixamos os problemas lá fora, aqui espairecemos, rimos e nos reencontramos”, declara. Pode parecer à primeira vista que a Uati é majoritariamente composta de mulheres, entretanto isso não é verdade. No coral da Uati, com quase 40 alunos, os homens soltam a voz. Um deles é Luiz Carlos de Lima, de 68 anos.

Na Uati desde 2014, o aposentado comparece duas vezes por semana no projeto. Ele afirma que na correria do dia a dia, cantar é o momento em que ele pode extravasar as emoções e relaxar. “Antes da Uati, eu ficava só em frente à televisão, descuidando da saúde e longe das pessoas. Aqui criamos amizades e só de estar junto já é muito bom”, completa. Luiz afirma que enquanto tiver forças continuará frequentando o curso. “Já me formei em 2015, sou veterano, mas a interação com o pessoal é fundamental”, conclui.

Para celebrar o Dia da Pessoa Idosa, a Uati promove em outubro o Mês da Pessoa Idosa, com programação dinâmica, palestras sobre o trânsito, prevenção de golpes, uso de ferramentas bancárias online e atividades ao ar livre, como um piquenique à moda antiga. Em 2023 a Uati também celebra 32 anos de existência, que será comemorado com um Baile de Debutantes. Serão 16 alunos e 16 alunas reunindo família e amigos num jantar dançante.

Natividade

No ginásio do bloco G, a partir das 14h, é possível escutar música e conversas: são os alunos do Natividade. Criado em 2019 pelas professoras Danilla Icassatti Corazza e Luiza Herminia Gallo, o projeto de extensão acontece por meio do curso de Educação Física da UEPG, com intuito de promover a saúde da pessoa idosa através de exercícios físicos. As docentes já atuavam com a melhor idade em outro município, porém, ao ingressarem na UEPG, realizaram o sonho de criar um projeto envolvendo idosos dentro da instituição. O recém-criado projeto não passou incólume pela pandemia: com a limitação do presencial e o fato de idosos serem grupo de risco, as professoras resolveram usar o tempo online para capacitar os estagiários que atuariam ao lado delas. Em 2022, o Natividade retomou as atividades presenciais, primeiramente atendendo obras sociais da Prefeitura em locais designados. Motivados pela vontade de melhorar a qualidade de vida das pessoas idosas, em 2023 o projeto iniciou os atendimentos no Campus Uvaranas.

Em março de 2023, no início do atendimentos, eram apenas seis idosos participando, número que rapidamente multiplicou: atualmente o projeto atende semanalmente, às terças e quintas-feiras, cerca de 30 idosos, entre homens e mulheres, com apoio de aproximadamente 30 alunos de graduação. Os idosos que chegam para participar do projeto são recebidos para uma avaliação física e preenchimento de ficha de cadastro, para que assim cada treino seja pensado e adaptado conforme suas necessidades e objetivos. Luiza relata que no começo uma das participantes, Dona Maria Lenir, não queria nem sair do carro no estacionamento, sendo convencida após muita conversa. Na semana seguinte a mesma aluna chegou sorrindo, falando o quanto amou a aula e trazendo três novas colegas para conhecer. “Toda vez que chega ela fala que ama o projeto, que é maravilhoso e se sente bem cuidada. Ela foi uma grande mudança no ponto de vista”, conta a professora.

Os relatos de melhora na qualidade de vida são motivo de agradecimento por parte dos idosos, e os sorrisos no rosto durante o treino revelam as marcas do tempo de quem tem histórias pra contar. Dona Eva, 60 anos, por exemplo, conheceu o Natividade através da neta, aluna da UEPG. “Eu estava acidentada em casa, parada após um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico. Meu braço travou, ficou torto”, relata. Com treinos focados em sua condição física e voltados à melhora, atualmente Eva já sentiu o membro ‘destravar’. “Já consigo levantar e erguer peso, mas até o final do ano eu quero voltar a bater palma”, compartilha emocionada.

A professora Danilla também fica com os olhos cheios de lágrima ao falar do projeto e de seus alunos. “Numa das aulas perguntamos o que eles estão achando do projeto, para saber como seguir, e foi muito emocionante. Um deles disse que o projeto aumentou a vontade deles de viver”, relata. As limitações físicas, como próteses no quadril, problemas ósseos e cirurgias são acompanhadas pelo olhar atento das professoras, acompanhando a evolução de cada participante individualmente. Mas além do físico, a saúde mental dos idosos é observada. Ao entrar na aposentadoria, os idosos tendem a se isolar, quadro que é revertido pela participação no Natividade. “A gente vê mudanças na vida deles. O exercício físico é a ferramenta que melhora as dores e promove convívio social, eles fazem amizade, descobrem que são vizinhos, dividem carona”, afirma Danilla. A docente exalta também o empenho dos estagiários envolvidos no projeto, que aplicam conhecimento e exercem a prática com paciência. “Para eles é muito rico, eles ensinam e aprendem muito”, finaliza.

Desde a sua chegada no curso de bacharelado em Educação Física, Estela Maria Moro Conche, aluna do primeiro ano, participa do Natividade. A graduanda entrou no projeto focada em ajudar os avós e afirma que nem vê o tempo passar. “Gosto de ver o carinho que eles têm pela gente, progredindo fisicamente, aumentando carga e tendo consciência corporal. Eles sentem menos dor e chegam com um sorriso no rosto”, completa.

O aposentado Oribe Ferreira Pedroso tem 84 anos e esbanja saúde: treina desde janeiro, incentivado pela filha formada em Educação Física, com objetivo de retomar os exercícios físicos. “Um exercício completa o outro e agora eu não sinto mais dor nos meus problemas de articulação”, afirma. Na mesma turma treina Amélia França, 67 anos, que conta animada os benefícios que o Natividade lhe proporciona, como a melhora no desgaste no joelho que a impossibilitava de andar pelo nível de dor. Hoje em dia, a preocupação da aposentada é outra: “até o final do ano quero destravar a barra”, relata rindo. A turma agradece aos professores e alunos a todo momento, afirmando que notam a evolução, por exemplo, ao conseguir andar pela praia com a família ou por estar se sentindo relax, como declara estar se sentindo Noeli Alves Ferreira. “Todos são muito empáticos, atenciosos e eu não falto nenhum dia! Vou continuar firme e chamando amigos para vir!”

Projeto Aurora

Ramon Jacopetti, aluno do 4º ano do curso, além de envolvido no Natividade, é participante do Projeto Aurora, programa de extensão vinculado ao Departamento de Serviço Social (Deseso), elaborado a partir do convite da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), através da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Culturais (Proex), como uma proposta piloto, replicada para as demais Instituições de Ensino Superior, de uma ação a ser desenvolvida nos condomínios para pessoas idosas do Programa Viver Mais Paraná.

O objetivo do projeto é desenvolver ações multidisciplinares que proporcionem às pessoas idosas a vivência positiva do envelhecimento por meio de diferentes atividades, promovendo a convivência social, a valorização de si e do meio no qual está inserido, bem como a capacitação dos agentes envolvidos no atendimento às necessidades e demandas dos residentes. A proposta é coordenada pela professora Maria Iolanda de Oliveira e conta com envolvimento de 6 projetos de extensão multiprofissionais: Uso e conhecimento de plantas medicinais e Cuidado farmacêutico, do Departamento de Ciências Farmacêuticas; Natividade, do Departamento de Educação Física; Atenção Multiprofissional em Saúde, do Departamento de Enfermagem; Atenção Odontológica aos residentes, do Departamento de Odontologia; Vivendo e Convivendo, do Departamento de Serviço Social.

Atualmente, o projeto acontece no condomínio para pessoas idosas de Jaguariaíva, em parceria com a Prefeitura Municipal, e atende 36 pessoas idosas por meio de ações individuais e em grupo, com até 2 encontros por semana. Os projetos se revezam entre os encontros de modo a garantir diversidade de abordagem e temas de trabalho, permitindo atendimento multidisciplinar às pessoas idosas residentes no condomínio.

Foto: Fabio Ansolin

da assessoria