O governo do Paraná suspendeu as aulas em todas as escolas da rede estadual por tempo indeterminado durante a pandemia do novo Coronavírus. Para tentar amenizar o prejuízo dos alunos em relação ao conteúdo e evitar a perda do semestre, a Secretaria de Estado da Educação (SEED) instituiu o programa Aula Paraná. Neste sistema, as aulas são ministradas à distância para alunos do Ensino Fundamental (6º a 9º ano) e do Ensino Médio pela TV ou internet.

No entanto, ainda existem problemas a serem resolvidos para que o sistema esteja em pleno funcionamento. Em entrevista à Rádio Cultura de Guarapuava, a professora do curso de Pedagogia da Unicentro e doutora em educação Michelle Fernandes Lima, ressaltou a gravidade da situação da pandemia, que implica em mudanças em todos os setores. No entanto, ela afirma que está havendo uma “compreensão bastante equivocada do que é educação à distância, comumente utilizada em cursos técnicos e Ensino Superior”.

“A experiência da EaD não está presente na educação básica, principalmente na rede pública. Neste contexto de suspensão das atividades presenciais, que não foi escolha do professor e nem da escola, mas um decreto estadual pontuou pela necessidade de evitar aglomerações, segundo recomendações do Ministério da Saúde. No Paraná, temos mais de 1 milhão de estudantes matriculados, e fica esta questão: o que fazer neste período? As aulas, como foram apresentadas no Paraná por meio de um aplicativo, com horários e tempo exagerado em tela do aluno e pelas condições econômicas em que se encontram as famílias, não são eficientes”, comentou.

Críticas

Michelle acredita que falta preparação e hábito para os professores utilizarem esta tecnologia, que não seria adequada para o ensino à distância. Além disso, ela alerta que muitas famílias enfrentam dificuldades por conta da quarentena e sequer têm acesso aos meios tecnológicos (Internet e TV digital) para os alunos acessarem as aulas. “Há dados de que o acesso à internet e aparelhos tecnológicos não é total de jeito nenhum, e é importante que percebamos isto”, frisou.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB – Lei nº 9394/96) estabelece que os estudantes precisam ter 200 dias letivos e 800 horas mínimas de aula. Com a pandemia, o Governo Federal lançou a Medida Provisória 93/2020, que desobriga as escolas de cumprirem os 200 dias letivos, mas manteve a quantidade de horas/aula. Com isto, o Conselho Estadual de Educação do Paraná instituiu uma legislação específica para este período, ordenando o desenvolvimento de atividades escolares. A crítica da professora vem no sentido de que estas precisam “assegurar a qualidade e o acesso de todos os alunos a elas”.

Outro ponto criticado por Michelle foi a falta de uma discussão sobre o Aula Paraná com as comunidades escolares, das quais fazem parte professores, funcionários, pais e alunos.

“Da forma como foi colocado, na última segunda-feira, não houve tempo para as escolas fazerem isto. O aplicativo foi lançado, os professores e as escolas estão perdidos, há questões graves acontecendo dentro do aplicativo, como erotismo, palavrões e outras coisas. As aulas gravadas pecam muito na qualidade e apresentam um modelo de professor que não é o que o aluno tem em sala. Estas aulas não foram gravadas por professores porque, esta semana, o Governo do Estado havia colocado 45 mil professores em licença compulsória e no outro dia mudou. Então, é complicado inclusive pela qualidade do conteúdo que os alunos estão assistindo”, criticou.

Exposição de dados e falta de controle de conteúdo

Michelle aponta que o aplicativo expõe dados dos alunos e não tem sistema de controle de idade e do conteúdo das conversas no chat. “Denúncias foram feitas pela APP-Sindicato de pornografia, pedofilia, suicídio coletivo, e todas estas ocorrências ferem o que está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) e na Constituição Federal”, pontuou.

Mesmo mantendo os alunos estudando em casa, na opinião da professora, a solução foi apresentada de forma improvisada. “Manter os alunos ativos cognitivamente é importante, mas esta solução é improvisada e pode acarretar muitas consequências porque não garante a qualidade e nem o acesso ao conteúdo”, finalizou.

Posição do NRE de Irati sobre o Aula Paraná

Procurado pela nossa reportagem, o chefe do Núcleo Regional de Educação (NRE) de Irati, Marcelo Fabrício Chociai Komar, afirmou que o programa ainda está sendo implantado e que a SEED segue trabalhando para que o sistema esteja funcionando plenamente em breve. Ele explicou que os professores passarão por um curso preparatório e que os devidos encaminhamentos estão sendo feitos. A Secretaria deve divulgar as datas do curso nos próximos dias.

Sobre as denúncias feitas pela APP-Sindicato, Marcelo disse que a direção da SEED deve apresentar um posicionamento em breve. Ele não quis comentar sobre os outros problemas apontados pela professora Michelle na entrevista.

 

Da Rádio Najuá