Além de apagar incêndios, os profissionais do 2º Grupamento de Bombeiros de Ponta Grossa atendem a ocorrências como desmoronamento, tentativa de suicídio e afogamento. Conheça três histórias repletas de tensão que mostram todo o heroísmo desses profissionais

Por Camila Delgado | Imagem: Reprodução / Shutterstock

Criado há 80 anos, o 2º Grupamento de Bombeiros de Ponta Grossa atende a 40 municípios paranaenses e presta atendimento diário a mais de 1,2 milhão de pessoas na região. Entre as ocorrências atendidas, estão acidentes de trânsito, afogamentos, quedas, incêndios e tentativas de suicídio. Somente no ano passado, os bombeiros fizeram quase 18 mil atendimentos. Desse montante, alguns foram mais marcantes, seja pela gravidade ou pela forma como ocorreram. Conheça a seguir três histórias que dão uma pequena ideia do trabalho heroico realizado pelos bombeiros.

Teste de paciência e de fé – Sargento Portela
Poucos meses antes de se aposentar, o sargento Portela passou por uma das experiências mais marcantes de sua carreira. “Alguns trabalhadores estavam executando uma obra de galeria pluvial. Eles abriram uma vala em todo o espaço da rua para fazer o manilhamento, com uma profundidade de aproximadamente seis metros. Devido à falta de escoramento, um trabalhador ficou soterrado”, conta.

Quando o 2º GB chegou ao local, os bombeiros identificaram o risco de um novo desabamento. A situação colocou o batalhão em uma encruzilhada: fazer o atendimento somente após um novo escoramento, pensando na segurança da guarnição, ou entrar para, ao menos, amenizar o sofrimento da vítima, mesmo com o risco de um novo desabamento? Portela relata que optou por dividir a equipe e fazer com que apenas ele e um companheiro entrassem para realizar o resgate.

“O meu companheiro conta que eu o joguei para fora do buraco e ia sair também, quando um enorme bloco de terra caiu nas minhas costas” (Sargento Portela)

Quando estavam perto de concluir a operação, ocorreu um novo desmoronamento. “O pessoal começou a gritar para que saíssemos. Eu não lembro, foi tudo muito rápido, mas o meu companheiro conta que eu o joguei para fora do buraco e ia sair também, quando um enorme bloco de terra caiu nas minhas costas”, narra Portela.

O sargento permaneceu no buraco com a vítima até que novas escoras fossem providenciadas. “Para piorar tudo, de repente começou a chover. Tudo isso foi para testar a nossa paciência e a nossa fé. As pessoas pediam para arrancarmos ele, mesmo que perdesse o pé. Mas, para nós, bombeiros, essa é a última saída”, explica. Após cinco horas de operação, a vítima foi resgatada com leves escoriações.

Trabalhando e rezando junto – Subtenente Avelar
Durante muito tempo, o subtenente Avelar trabalhou como salva-vidas nas praias do Paraná durante o verão. Nesse período, antes de descer para o litoral, ele convidou um cunhado para ir a um clube da cidade comemorar o final do ano antecipadamente. “Lá tinha um garotinho, de uns cinco anos mais ou menos, que sabia que eu era bombeiro e queria mostrar que sabia nadar”, conta.

Depois que o menino deu alguns pulos e mergulhos, o pai da criança correu em direção ao subtenente. Desesperado, ele estava com outra criança, inconsciente, no colo. “Eu perguntei o que tinha acontecido, e ele disse que seu filho tinha mergulhado na piscina e visto um menininho dormindo lá embaixo”, recorda.

“Eu perguntei o que tinha acontecido, e ele disse que seu filho tinha mergulhado na piscina e visto um menininho dormindo lá embaixo” (Subtenente Avelar)

Rapidamente, Avelar e o cunhado começaram a ressuscitar a criança. “Ela já estava cianótica, com os lábios roxos, mas decidimos investir mesmo assim”, conta. Foram cerca de 30 minutos de angústia e muito trabalho, até que o menino voltou a dar sinais de vida. “Você vai fazendo os procedimentos e rezando ao mesmo tempo para que a pessoa reaja”, explica.

Quando o Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma em Emergência (Siate) chegou ao clube, a criança já estava no colo do bombeiro, chorando, mas viva e bem. “Isso já tem uns 20 anos, e até hoje, quando ele me encontra, vem me agradecer por eu ter salvo a vida dele”, revela.

Controle emocional à prova – Cabo Mauro Pereira
Entre as várias ocorrências que já atendeu, foi uma recente a que mais marcou o cabo Mauro Pereira. Um jovem ameaçava suicidar-se do alto de uma máquina de perfuração. “Ele tinha sido vítima de bullying no trabalho e dizia que queria se matar para acabar com aquilo e para fazer as pessoas que o incomodavam sentirem-se culpadas”, relata.

A negociação com o rapaz foi difícil. Como ele estava no alto, o acesso teve que ser feito por baixo, exigindo um grande esforço físico do bombeiro. “Eu tinha que ficar olhando para cima o tempo todo. Foi muito cansativo. Até que ele aceitou que eu me aproximasse por meio de uma plataforma mecânica”, relembra.

Durante as várias horas de negociação, o bombeiro tentou estabelecer uma conexão com o rapaz. “Primeiro, você ouve, deixa que a pessoa conte toda a história. E, depois, você começa a direcionar a conversa, mostrar os pontos positivos e dissuadi-lo da ideia de se matar”, explica.

“Em alguns momentos da conversa, eu fugia da minha parte profissional. Era a pessoa Mauro ali, pedindo para que ele desse mais uma chance a si mesmo” (Cabo Mauro Pereira)

Depois de muito tempo de conversa, o cabo percebeu que era hora de ser mais incisivo na negociação. “Era um dia de inverno, mas o sol estava bem quente. Como fazia horas que ele estava lá sem comer, ele estava dando sinais de hipoglicemia. Além disso, faltava pouco para escurecer, o que ia dificultar ainda mais o trabalho”, relata.

Aos poucos, mostrando o quanto a família sofreria com aquela decisão, o cabo foi convencendo o rapaz a desistir do suicídio. “Em alguns momentos da conversa eu fugia da minha parte profissional. Era a pessoa Mauro ali, pedindo para que ele desse mais uma chance a si mesmo”, lembra. Após cinco horas de operação, o rapaz concordou em descer. “É preciso pensar positivo, ter o controle emocional e ir até o fim”, conclui.

 

Fonte: https://dpontawebnews.com.br/2020/01/03/historias-de-heroismo-dos-bombeiros-de-ponta-grossa/