O Brasil está entre os mais de 150 países que integram o consórcio global Covax Facility, uma iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), em parceria com a ONU, para aquisição e desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19. Porém, no contrato assinado ano passado, o Ministério da Saúde solicitou imunizantes para 10% de sua população quando poderia ter pedido mais. “Esse mecanismo global tem contrato com nove fornecedores. Os países teriam opção de contratar vacinas para até 20% de sua população e o Brasil optou por 10%”, afirmou a vice-diretora geral da OMS, Mariângela Simão, durante a reunião da Frente Parlamentar do Coronavírus da Assembleia Legislativa do Paraná, nesta terça-feira (23). “Vamos enviar um requerimento ao Ministério da Saúde imediatamente solicitando essa ampliação “, avisou o coordenador do grupo, o deputado Michele Caputo (PSDB).

A primeira remessa de mais de 1 milhão de doses de vacinas do consórcio global já chegou e 1,9 milhão de doses devem vir até o final de março, segundo o Ministério da Saúde. “Se pudermos ampliar o percentual, esse número será muito maior”, disse Caputo.

O problema é que há uma guerra das vacinas em todo o mundo. “O Brasil receberia mais vacinas do Instituto Serum, da Índia, que produz para os países em desenvolvimento, mas não deve entregar por enquanto.  Não tem vacina para ninguém, infelizmente”, advertiu Mariângela, que participou da reunião por videoconferência, de Genebra, na Suíça, sede da OMS.

Enquanto isso, ela reforçou a necessidade de união entre todas as esferas de poder e as medidas de prevenção. “Há uma falsa impressão de segurança com a chegada das vacinas, mas é preciso lembrar que elas não impedem a transmissão. Por isso, as medidas de prevenção são fundamentais. Distanciamento e até lockdown precisam ser feitos. O que se sabe é que as vacinas impedem a mortalidade e não a transmissão”, alertou.

Mariângela Simão também falou sobre a situação delicada do Brasil frente às variantes e à ausência de uma coordenação nacional.  “O Brasil passa por um momento especial, que destoa da situação do mundo, que tem um decréscimo no número de casos, enquanto por aqui ocorre o contrário”. Quase 400 milhões de vacinas foram aplicados em todo o mundo, de acordo com Mariângela Simão. Só do Consórcio Covax Faciity são 32 milhões de doses.

Ela aproveitou para reforçar que a vacina da AstraZeneca é segura e não tem uma ligação comprovada com a trombose intravenosa, relatada em alguns países. “São efeitos que até podem ocorrer, assim como choques anafiláticos, mas são raríssimos e estão na bula como reações adversas”, garantiu.

Estudos – A vice-diretora da OMS também detalhou que pelo menos 80 vacinas estão sendo desenvolvidos em fase final e que a entidade conta com um banco de dados com 2700 estudos no mundo com drogas para combater de forma medicamentosa a Covid-19. Entre eles, foi aprovada a recomendação do uso da Dexametasona em casos graves.  Assim como o Rendesivir, que apesar de ter um alto custo, pode ser utilizado em nível hospitalar e também em casos graves.

Consórcios e parlamentares fazem cobranças – O deputado Arilson Chiorato (PT), que participou de reunião do Consórcio do Nordeste, presidido pelo governador do Piauí, Wellington Dias, nesta segunda-feira (22), para a aquisição da vacina russa, Sputinik V, explicou que está havendo a formalização para a compra de doses. Ele informou aos mais de 15 parlamentares e especialistas presentes que o Consórcio Paraná Saúde poderia participar da negociação para a adquirir doses junto ao fundo russo. “Seria para a compra de dez milhões de doses para o Paraná. A Frente poderia fazer a intermediação dessa compra.  Mas o prazo expira nesta quarta-feira (24)”, avisou.

O secretário-executivo da Frente Nacional dos Prefeitos, Gilberto Perri, deu detalhes de como foi o lançamento oficial do grupo de trabalho, ocorrido nesta segunda-feira (22), onde foi aprovado o Estatuto que criou a Frente.  A partir da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), em 23 de fevereiro, de que estados e municípios poderiam comprar vacinas, gestores municipais de todo o país se mobilizaram. Já são mais de 2.600 municípios interessados. Sendo que 1.735 já aprovaram leis municipais para autorizar esses prefeitos e prefeitas a aderirem ao consórcio público, que pode alcançar mais de 100 milhões de brasileiros. 25 capitais demonstraram interesse e 22 aprovaram seus projetos de lei. “Constituímos o consórcio como pessoa jurídica para não haver judicialização das compras. Não queremos confrontar o Ministério da Saúde nem o Programa Nacional de Imunização (PNI). Pelo contrário. Queremos nos articular para fazer as negociações para a aquisição de vacinas. Inclusive com os Estados Unidos e Canadá, que possuem mais doses que as suas populações”, pontuou.

O consórcio fica autorizado a adquirir as vacinas, mas a atribuição de distribuir é do Ministério da Saúde. Ministério que, aliás, foi bastante cobrado ao longo da reunião. Tanto pelo secretário municipal de Saúde de Londrina, na região Norte do Paraná, Felippe Machado, que falou de como tem sido executada a campanha de vacinação no município. “Estamos acostumados a vacinar 100 milhões de brasileiros todos os anos contra a gripe no Brasil. O problema neste momento é que estão faltando vacinas. Aqui já vacinamos 42 mil londrinenses. Com a nova orientação do Ministério da Saúde, de aplicar todas as doses, vamos ampliar nossas faixas etárias para vacinar. Nossas equipes não param e estão prontas”, afirmou.

Também houve cobrança por parte dos deputados federais, Toninho Wandscheer (PROS), líder da Bancada Federal no Congresso, e Leandre Dal Ponte (PV), que atua na Comissão Externa de Combate à Covid na Câmara dos Deputados. “Nossa Comissão precisa de informações precisas sobre o ritmo da vacinação. Nosso papel é cobrar do Governo Federal ações eficazes”.

Os deputados estaduais Luiz Claudio Romanelli (PSB), Professor Lemos (PT), Soldado Fruet (PROS) e Delegado Recalcatti (PSD) questionaram o ritmo da vacinação no estado, cobraram um cronograma com a quantidade de doses a serem enviadas ao estado, pediram a ativação de leitos, produção de oxigênio e inclusão dos profissionais da educação e segurança pública nos grupos prioritários. “Policiais civis, militares e penais estão adoecendo diariamente e não estou vendo uma luz no fim do túnel para que estes servidores públicos sejam colocados como prioridade”, lamentou o deputado Soldado Fruet. “No serviço de rua não tem como o policial não ter contato com o abordado, o policial penal não tem como não ter contato com o preso. Eles estão ficando doentes e, pior do que isso, não tem quem os substitua, o que está sobrecarregando quem fica em serviço”, completou o deputado.

Também marcaram presença os deputados Requião Filho (MDB), Nelson Justus (DEM), Boca Aberta Júnior (PROS), Alexandre Amaro (REP), Homero Marchese (PROS), Rodrigo Estacho (PV), Luciana Rafagnin (PT), Cristina Silvestri (CDN), Maria Victoria (PP), Mabel Canto (PSC), Tadeu Veneri (PT), Dr. Batista (DEM), Evandro Araújo (PSC), Goura (PDT) e Emerson Bacil (PSL).

População quer vacina – 84% da população brasileira quer ser vacinada, como aponta recente levantamento do instituto Datafolha. E para dar algumas das respostas que os deputados pediram, falou Heloísa Giamberardino, vice-presidente regional da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIM).

Detalhando os resultados da campanha de imunização no Paraná e as estratégias para uma vacinação bem-sucedida, a médica disse que a população prioritária, em princípio, seria de quatro milhões de pessoas, mas professores e profissionais de segurança estão previstos no Plano de Vacinação do Paraná.

Destacou a campanha de vacinação de Israel, que já vacinou 94% de sua população com a primeira dose e 62% com a segunda, o que garantiu 70% da população protegida, mas lembrou que os dados não servem como comparação. “É importante lembrar que lá à população é de nove milhões de habitantes, menor que a do Paraná, que é de 11 milhões”, disse.

Também informou que o estado recebeu 1 milhão e meio de doses. Até agora, ela explicou, foram 415 mil pessoas vacinadas por mês/Paraná com a primeira dose e 150 mil pessoas/mês com as duas doses. O que representou 10% do grupo prioritário. “O problema é que, nesse ritmo, terminaríamos esse grupo apenas em janeiro de 2022. Por isso, ainda não tivemos impacto dessa vacinação. Até porque, dia 26 de fevereiro coincidiu com a entrada das variantes e se agravou nossa situação”, lamentou.

 

 

Da Assembleia legislativa