Como diz Adélia Prado, em um dos seus poemas, “mulher é desdobrável”. Entre divisão de trabalhos e funções, o papel da mulher torna-se cada vez mais indispensável em vários setores da vida profissional. Em um ambiente hospitalar, a história não muda. Elas são essenciais. Longe dos papéis de feminilidade sensível, que muitas vezes são impostos, dentro do hospital são elas que seguram firme, organizam, desenvolvem e não param.

No Hospital da Universidade Estadual de Ponta Grossa (HU-UEPG) e no Materno Infantil (Humai), há vários exemplos dessas mulheres “desdobráveis”, como a enfermeira coordenadora do Pronto Atendimento, Letícia Waselcoski. A madrugada de hoje (08) foi difícil para os profissionais que trabalham no Pronto Atendimento. Com taxa de 700% de ocupação na ala, não havia mais ventiladores disponíveis. Letícia já tinha cumprido 24 horas de plantão no dia anterior e, às 5h, uma das enfermeiras ligou para ela. Na ligação, contou que precisava de um local para colocar mais uma rede de oxigênio.

Letícia se deslocou até o Hospital para conseguir um ponto disponível para instalar um ventilador. “A equipe estava tensa. Eu e as enfermeiras responsáveis reunimos a equipe. Eu, como coordenadora, me coloquei à disposição para tudo que precisarem, combinamos que nesse momento ninguém larga a mão de ninguém. Conseguimos então resolver o ponto de oxigênio e a equipe ficou mais tranquila”, conta.

Para Letícia, ser mulher e enfermeira em um momento de pandemia fortalece o grupo de mulheres que lutam para serem líderes no mercado de trabalho. “Na enfermagem, a maioria são mulheres e nesse momento estamos conseguindo destaque. Estamos também conseguindo quebrar o paradigma que mulheres trabalham apenas com a emoção, aqui estamos mostrando que mulheres conseguem trabalhar racionalmente”, completa.

Ana Maria da Costa Carneiro, assistente social responsável pelo apoio aos familiares que perderam seus entes queridos para a Covid-19, trabalha no turno da noite em regime remoto, e consegue exercer toda sua empatia para com as pessoas enlutadas. Em muitos turnos, chegou a atender até 8 óbitos de uma só vez. Para que possa se manter firme, ela conta com a ajuda da oração. “Além da formação técnica necessária para realizar o atendimento, trago comigo a noção de que vivemos em fraternidade, e isso me dá condições para fazer o acolhimento das famílias atendidas”, explica.

No HU, atualmente, trabalham 1426 mulheres, entre efetivas, temporárias, pessoa jurídica, residência médica, residências multiprofissionais e estagiárias. Todas colaboram para fazer do HU um hospital de referência na região no combate à pandemia.

Cleonice Darold, enfermeira do trabalho, atua diretamente na campanha de vacinação da Covid-19. Desde o momento em que a equipe soube do recebimento das doses da vacina, até a última dose aplicada, foi um misto de sensações para ela. “Apreensão e medo pela responsabilidade de imunizar, rapidamente, cerca de 1500 funcionários em um curto período de tempo, e imensa alegria de atingir o objetivo final”, relembra. Os sacrifícios são inúmeros. Dentre eles, Cleonice destaca que precisou abrir mão de muitos momentos em prol do trabalho. “Acabamos ficando muito mais tempo no Hospital do que em casa e, para cumprir nosso trabalho, deixamos em segundo plano nossa vida pessoal”.

As alas dedicadas ao tratamento da Covid-19 têm colaboradoras incansáveis. Vanderléia Vieira Maia, técnica em enfermagem, trava uma luta diferente a cada dia. Cada paciente é único e precisa de um cuidado diferente. De acordo com ela, são pessoas que, além de estarem doentes, estão carentes, porque não têm contato com a família. “Quando entro na ala, sempre peço a Deus que eu possa ser uma pessoa que traga algo inspirador para o paciente internado, que eu consiga ser humana”, conta.

As orações também fazem parte da rotina de Rosenilda de Fátima Rosa, servente há 12 anos no HU. Todos os dias, ela deseja que tudo passe e que a rotina volte ao normal. “Me dá muito medo e também me enche de responsabilidade, porque eu também sou linha de frente e por isso me esforço para dar o meu melhor”.

A enfermeira Josiana Bielik também sabe que seu esforço faz a diferença na vida dos pacientes. Segundo ela, muitas vezes é necessário não apenas atender necessidades físicas, mas também emocionais, psicológicas e até religiosas. “É uma rotina bastante intensa, trabalho das 7h às 19h e a primeira coisa que faço quando chego é conhecer meu paciente, ver qual a necessidade de cada um e também ouvir suas histórias”, relata.  Para ela, o que a marcará, além das histórias tristes, são aquelas que tiveram final feliz, com o paciente recuperado e voltando para casa.

Ser mãe e mulher, em um local para mães e mulheres

O Hospital Universitário Materno Infantil (Humai) tem 98 mulheres profissionais, que ajudam a trazer ao mundo filhos e também novas mães.  Para dar conta de tudo, muitas dobram e triplicam plantões. São médicas, enfermeiras, técnicas de enfermagem, nutricionistas, psicólogas, assistentes sociais, serventes da limpeza e cozinha e farmacêuticas. Todo o esforço dessas profissionais garantiu 1192 partos somente em janeiro.

Dentre as mães que trabalham no Humai, Danielle Ritter Kwiatkoski divide sua rotina em plantões noturnos de 12 horas, em uma escala de 36 horas semanais. O trabalho à noite lhe dá a chance de ficar durante o dia com as filhas, Heloísa e Maria Eduarda, de 6 e 2 anos, respectivamente. “Nossa rotina é puxada, não paramos, tanto eu quanto meu esposo desempenhamos nossa missão de pais do amanhecer ao anoitecer cuidando e educando as meninas. É um trabalho árduo, desafiador, porém indescritível em termos de amor, entrega e superação”, conta.

Danielle é enfermeira e, com frequência, se coloca no lugar de mulheres que entram para realizar partos. Dentre os casos marcantes que atendeu, ela se lembra de Kezia. A gestante sofreu um acidente e ficou em coma na UTI. A cesárea de emergência foi feita com a paciente em estado grave, para salvar o bebê prematuro. “Foi no meu plantão que o pequeno Miguel nasceu, precisou de reanimação neonatal e, por milagre, tanto a cirurgia quanto o atendimento do pequeno transcorreram bem”. A paciente chegou a ser dada como morta, mas ao final, ambos receberam alta, vivos e bem.

O trabalho em meio à pandemia mexeu com a rotina das profissionais do Humai. Cláudia Regina Capriglioni trabalha no banco de leite humano, que tem como princípio auxiliar as mães na amamentação, além de arrecadar as doações das mães que produzem mais leite do que seus bebês consomem. Para ela, a atual situação da saúde trouxe um benefício, que foi unir o setor materno ao infantil em um único local, no centro da cidade. “Em alguns dias, tivemos que controlar nossos medos, confiando na ciência e no uso das técnicas de segurança e, na minha visão, tem dado muito certo”, explica Cláudia. No ano passado, o banco de leite arrecadou 50% de leite humano a mais, em comparação ao ano anterior. Para ela, essa é a lição que levará deste momento: mulheres unidas pelo amor ao próximo.

Em plantões de 24 horas, a técnica em enfermagem Elisa Cristo Moreira já presenciou vários momentos marcantes com as pacientes. Ela atua na clínica obstétrica, onde auxilia na recepção dos bebês que nascem, realiza coleta de exames e outros procedimentos direcionados aos recém-nascidos. “Muitos bebês nascem com complicações, mas com uma boa equipe que, no nosso caso, são de maioria mulheres, ficamos nos sentindo ótimas quando conseguimos um bom resultado”. A satisfação de fazer um bom trabalho também  envolve a rotina de Tatiane Tinin, técnica de enfermagem. “Busco tirar todas as dúvidas que as pacientes possam ter, para que elas recebam todo o carinho e dedicação da minha parte”, explica. Para a nutricionista Kauana Hendges, o dia a dia no Humai é cheio de surpresas. Segundo ela, cada gesto é muito valorizado, como sorrisos, abraços, até um singelo piscar de olhos. “Com a Covid-19, estamos valorizando ainda mais tudo isso, não vemos a hora de podermos voltar a abraçar e ver o sorriso das pessoas”.

Trabalhar no setor materno-infantil sempre teve suas peculiaridades em relação ao cuidado que devemos ter com as crianças, mães, segundo a psicóloga Bruna Florenski Lemos. Nos sete anos que trabalha no setor materno-infantil, ela ressalta a coragem das mulheres e mães que atuam na UTI Neonatal e Pediátrica. “Mesmo diante de todas as adversidades, elas permanecem no ambiente hospitalar, cansadas física e psicologicamente, acompanhando seus pacientes”, completa.

Da assessoria/Fotos: Aline Jasper.