Reitor da UEPG fala sobre o retorno das aulas presenciais na instituição, as melhorias realizadas nos campi, a aproximação da universidade com a comunidade, o mundo acadêmico durante e pós-pandemia, e o governo Elizabeth Schmidt

Assim que assumiu a reitoria da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), em setembro de 2018, o professor Miguel Sanches Neto fez o primeiro planejamento estratégico da instituição. Nesse estudo, foram listadas as áreas que deveriam receber investimentos. Com base nele, a reitoria vem realizando, desde então, diversas melhorias tanto no campus central quanto no campus de Uvaranas. “O nosso lema é ‘nenhuma obra parada’”, afirma Sanches Neto, na entrevista a seguir, em que aborda o retorno das aulas presenciais na instituição, as obras realizadas nos campi, a aproximação da universidade com a comunidade, o mundo acadêmico durante e pós-pandemia, e o governo Elizabeth Schmidt.

Ponta Grossa, assim como diversas outras cidades do estado, deve vacinar a maior parte da população com, pelo menos, a primeira dose da vacina anti-COVID até o fim do ano. Existe uma previsão de volta das aulas presenciais na UEPG? Se sim, como deve ser esse retorno? Existe um plano de retomada?

A volta das aulas presenciais não é uma decisão que caiba ao reitor. Dentro da universidade, existem duas correntes muito distintas. Uma que defende o retorno das aulas quando os professores e funcionários estiverem com a segunda dose. E outra que defende que isso só deva acontecer quando no mínimo 70% da população estiver com a segunda dose, para a segurança dos alunos, que chegam à universidade majoritariamente de ônibus, alguns vindos de outros municípios. Para tomar qualquer decisão, os conselhos da UEPG precisam de uma autorização do Conselho Estadual de Educação, órgão que segue as diretrizes do Conselho Federal de Educação. É preciso também uma autorização sanitária da Secretaria de Estado da Saúde. Como se pode ver, o retorno das aulas presenciais não é regido pela vontade deste ou daquele grupo, mas por documentos que ainda não existem. O que está valendo é o que está aprovado pelo Conselho Universitário: aulas teóricas – e as práticas que permitirem tal modalidade – em modo remoto; e aulas práticas de alguns cursos da saúde de forma presencial, tal como vem sendo feito com sucesso pela UEPG. É preciso dizer que todos os professores querem o retorno das aulas presenciais, o que diverge é quando. Mas é preciso dizer também que a comunidade docente está de parabéns, pois já formamos 1.700 pessoas durante a pandemia e esta semana formaremos mais 80, entre eles uma turma inteira de medicina, enquanto há grandes universidades paranaenses que sequer começaram as aulas remotas. Fizemos os vestibulares de 2021 e já estamos com o vestibular de 2022 com inscrições abertas. Ou seja, a volta do presencial é uma questão que pode ser tratada com todo cuidado, sem precipitações, protegendo vidas, pois estamos em plena atividade remotamente.

Desde o início da pandemia, a UEPG tem passado por diversas obras, tanto no campus central quanto no campus Uvaranas. Que melhorias aguardam os alunos quando eles voltarem às aulas? Quais são, enfim, as obras que você destacaria e que ainda não foram conferidas ‘in loco’ pela comunidade universitária?

Assim que assumi a reitoria, em setembro de 2018, fizemos o primeiro planejamento estratégico da UEPG. Neste estudo, listamos as áreas que deveriam receber investimentos. Com base nele, informatizamos todo o trâmite interno, tornando-nos a primeira universidade pública brasileira a não ter mais processos físicos. Investimos R$ 3 milhões em redes e equipamentos de acessibilidade digital – isso antes da pandemia. Focamos na conclusão das obras paradas ou sequer começadas, e hoje temos a nova ala do HU [Hospital Universitário], o bloco de Engenharia de Materiais e o Laboratório Multiusuário concluídos e mais três prédios em fase de finalização: o Anexo do Pax, interrompido momentaneamente por cancelamento do empenho por parte do Governo Federal; o Centro Multiusuário de Pesquisas Avançadas para Tecnologias do Agronegócio [CTAGRO]; e o Laboratório de Integração Tecnológica em Ciências Humanas e Sociais [LITEC]. Nosso lema é “nenhuma obra parada”. Também executamos projeto e fizemos obras importantes: o recapeamento e sinalização de praticamente todo o Campus de Uvaranas, com investimento de quase R$ 5 milhões; a instalação do CT UEPG-Operário; a pavimentação e a iluminação do estacionamento central; o vestiário da Fazenda Escola; e a Casa de Passagem do HU. E executamos, com recursos próprios, a troca das janelas externas do Campus Central, que agora são de PVC e com vidros duplos. Essas obras são estruturantes e buscam dar melhores condições de estudo, de trabalho e de permanência em nossos campi. Aproveitamos o período da pandemia para acelerar obras que, com as aulas presenciais, seriam muito complexas.

A UEPG vem implementando o projeto Campus Parque desde 2018. A iniciativa visa aproximar a universidade da comunidade. Quais foram as contribuições desse projeto para a comunidade até o momento? E quais são os planos para o Campos Parque a partir do ano que vem?

O mais importante foi executar o projeto de iluminação do campus de Uvaranas, estendendo-a até a pista de atletismo. Também instalamos uma base da Polícia Militar na entrada, para aumentar a segurança e atrair a comunidade, que é a grande protetora do nosso patrimônio e das pessoas que circulam pela universidade. O recape e a sinalização do campus estão voltados também para atender a população. A partir dos próximos dias, o campus de Uvaranas será aberto a atividades da população, seguindo medidas rígidas de segurança. A novidade, no pós-pandemia, será a inauguração do Museu de Ciências Naturais, já em fase de finalização. E estamos estudando duas ciclo-rotas, em parceria com o Paraná Esporte, que também serão para a comunidade.

Para você, qual é o “legado” da pandemia para a universidade de modo geral? Como, enfim, você imagina a universidade no mundo pós-pandemia?

Toda dificuldade traz sempre aprendizados. A UEPG passa pela pandemia com um papel de protagonismo no cenário estadual, coisa nova para nós. Darei três exemplos. Fomos a primeira universidade pública a fazer o vestibular em contexto de pandemia e criamos um protocolo para isso, seguido pelas demais. Fomos a universidade escolhida para filmar a ação das IES [instituições de ensino superior] no combate à COVID, cobrindo o Paraná todo. Esse documentário está em fase de finalização e é composto por uma série de 17 capítulos, que ficará disponível no streaming do Governo do Estado – é o documentário mais completo da pandemia de todo o Brasil. E nos tornamos referência na formação de agentes públicos de forma remota. Demos cursos de especialização e de extensão em Gestão do Esporte para os 399 municípios, o curso dos Diretores das Escolas Estaduais, ofertamos residências técnicas em 1) Gestão Pública, 2) Projetos e Obras Públicas e 3) Engenharia Ambiental. Formatamos e vamos ofertar o curso para a Bolsa Qualificação, destinado a 12 mil artistas, eruditos e populares, também nos 399 municípios. Do ponto de vista didático, a pandemia deu oportunidade para que os professores desenvolvessem novas habilidades e novos instrumentos, o que permitiu o funcionamento da instituição mesmo sem as aulas presenciais. Como um todo, a pandemia forçou a autonomia da aprendizagem e a atualização tecnológica de professores, agentes e da administração. Seremos uma universidade muito mais interativa no pós-pandemia, que valorizará os momentos presenciais. Por isso, os nossos campi devem ser cada vez mais atrativos, seguros e com ofertas de serviços para a comunidade externa e interna.

Desde que se mudou para Ponta Grossa, você vem pensando e discutindo a cidade em seus mais variados aspectos. Como você avalia esses sete primeiros meses do governo Elizabeth Schmidt? Para você, onde a professora está acertando e onde poderia melhorar? E como você avalia a gestão da pandemia pela administração municipal até agora?

Eu vejo um desejo muito grande de acertar e de fazer o certo. Ninguém pode tirar esse mérito da atual gestão, que tem buscado fortalecer os investimentos na cidade e a ampliação dos equipamentos públicos. A UEPG tem agido para assessorar as diversas instâncias do município, nas mais diversas áreas, com o estabelecimento de políticas públicas, com contribuições técnicas, com apoio a projetos de interesse comunitário, como a parceria para a construção do novo IML [Instituto Médico Legal] no campus de Uvaranas. Acho que pode ser melhorada a escuta dos bairros, da classe trabalhadora, que precisa de mais programas tanto assistenciais quanto de infraestrutura e de geração de renda. Uma sociedade desenvolvida é aquela em que o dinheiro circula em todas as classes. Durante a pandemia, houve momentos de acerto, como a organização exemplar da vacinação, o equilíbrio entre a suspensão de horário de funcionamento do comércio e a manutenção mínima das atividades e o esforço para colocar em atividade a UPA [Unidade de Pronto Atendimento] Santana. Enfim, ser gestor na pandemia não é tarefa fácil.

Por NCG.news / Foto:Luciane Navarro